Há tempos tenho repetido exaustivamente que tenho medo do Brasil e a reflexão sobre um país perigoso parece causar sono em alguns. Poderia escrever aqui um longo discurso apontando que sono é resultado da inércia que alguns estão imersos, mas quem sou eu para apontar alguns se também faço parte desses uns? Não sei se eu andava adormecida e quando acordei, mas garanto-lhes que foi bem antes da tag #acordaBrasil estourar nas redes sociais. Contudo, mais uma vez, tal fato não faz de mim melhor cidadã do que a legião dos que despertaram com o #acordaBrasil e correram para rua.
É inegavelmente belo o apoio que a manifestação conseguiu arrebanhar ao longo do país e mais bonito ainda saber que o apoio das pessoas vem de maneira bem menos segmentada do que poderíamos esperar. De início há uma adesão que ultrapassa filiações partidárias e, o que faz do Brasil um país perigoso, crenças religiosas.
Foi por conta de exageros advindos de líderes religiosos que passei a classificar o meu país como um lugar perigoso. Que estamos enclausurados por conta da violência urbana há tempos, já não é mais notícia. Mas e os direitos humanos, individuais? E todos esses assuntos que aos olhos de grande parte são reivindicações de ‘baderneiros desocupados’?Dia desses, talvez ontem, vi um tuíte que dizia que nem o movimento negro, nem o feminismo, nem os índios e nem a causa LGBTTT estavam dormindo. Sou testemunha. Realmente não estavam.
Acontece que eram (ainda são) causas sem o apoio da maioria, ao contrário do que vemos agora e de maneira simplista poderíamos resumir tudo em um ‘claro, mexeu no bolso!’. Todavia,mais do que mexer no bolso, percebo que agora outros movimentos se juntam ao que começou como uma contrariedade ao aumento do valor das passagens. ‘Ei, não é por 20 centavos’ e os demais movimentos não são oportunistas loucos por ‘pongar numa carona’. Somos todos gente que precisa de voz.
Vocês conhecem algum sistema mais propício para o ecoar de vozes dissonantes do que a democracia? Ao ver na tv uma repórter (Globo) fazendo cobertura ao vivo da manifestação em São Paulo dizer ‘esperamos que a polícia logo consiga conter o movimento’, volto a minha ideia-tese-afirmação-? de que o Brasil é um país perigoso.
Diante de um Marco Feliciano que mostra todos os dias uma postura religiosa mais xiita do que qualquer aiatolá pode desejar ter, da votação de um Estatuto do Nascituro assustador; de um governo que desapropria terras indígenas, investe bilhões em uma Copa do Mundo esquecendo-se da saúde, segurança e educação; mantém-se isento enquanto uma polícia truculenta atira balas de borracha (que ferem e machucam), spray de pimenta e rasga cartazes de manifestantes pacíficos ao passo que joga fora garrafas de vinagre usadas pelos mesmos como proteção aos efeitos do gás. Estamos, sim, em uma país mais perigoso do que podemos supor.

















